Product Arena
Por que a Claro criou o próprio jeito de fazer produto
Como a Claro declarou o próprio jeito de fazer produto: o gatilho da mudança, o risco de não fazer como critério de priorização e por que começar pequeno.
Por Arthur Castro
Nos últimos anos, diversas empresas no Brasil deixaram de apenas copiar frameworks e passaram a declarar o próprio "jeitinho" de fazer produto. Dois bem conhecidos são: - [Itaú, com o Jeito Itaú de Produtar](https://carreiras.itau.com.br/produto) - [iFood, com o Jeito iFood de Produtar](https://institucional.ifood.com.br/inovacao/jeito-ifood-de-fazer-produto-como-estruturamos-problemas-antes-de-escalar-solucoes/) A Claro é outra que decidiu criar e declarar o seu jeito. Conversei com duas pessoas por trás desse processo: - **Rafa Brandão**, que olha a disciplina de produto digital na Claro. - **Rogério Campos**, que lidera o Minha Claro. O papo foi fundo em por que uma empresa do tamanho da Claro precisou declarar o próprio jeito de fazer produto, nos desafios de fazer isso numa empresa com milhares de funcionários e clientes, nos resultados e no que muda quando isso vira cultura e sai do slide. [](https://youtu.be/SFFWZpSCd9c) ## Por que criar um jeito próprio? A pergunta que eu fiz pra eles foi simples: **qual foi o gatilho?** O Rafa disse que não foi um estalo. **Foi necessidade.** Negócios tradicionais e vitoriosos estão em transformação digital, e construir um produto digital de verdade virou parte do negócio. Produto bom, na leitura deles, faz sentido pras pessoas e traz valor pro negócio. Ponto. O Rogério trouxe a dor do dia a dia. Dezenas de áreas pedindo coisas diferentes, todas querendo entrar no canal que está na frente do cliente. Sem estrutura, vira priorização vinda de todo lado. Com estrutura, dá pra olhar impacto, complexidade e visão do cliente sem ser só top-down forçado. > "Quando você olha para o jeito seu de fazer produto, isso significa que de fato você não pode olhar para frameworks, botar ele no bolso e achar que você está resolvendo tudo." O Rafa reforçou: o jeito Claro complementa o modelo mental tradicional. E tem um pedaço que pouco se fala: conhecer os times, a capacitação, quem nem está se falando. Declarar o jeito promove conversa qualificada e muda a cultura. Cultura, aliás, foi o consenso dos dois como o passo mais difícil. ## Os pilares — e o risco de não fazer - Bom produto entrega valor pro usuário e gera impacto no negócio. - Precisa caber na complexidade técnica e na capacidade do time. A particularidade da Claro, segundo o Rafa (que veio do iFood e conhece os dois mundos), é um atributo a mais: **O risco de não fazer.** Questões legais, regulatórias, tributárias, decisões de negócio. Isso muda o debate de priorização. Não é só "quanto impacto gera". É "o que acontece se a gente não fizer". O Rogério deu um exemplo de dogma que caiu: a premissa de ter todas as funcionalidades em todos os canais. Outra camada: domínio de valor. Quando o Rogério senta com a head de e-commerce e define que o Q4 é focado em vendas, ou com quem olha experiência do cliente e foca no básico bem feito, isso orienta as pré-PIs e o planejamento. Não resolve 100% o martelo de Thor que chega de cima, mas qualifica o trade-off. > "Fazer produto é difícil pra caceta. O tempo inteiro aparecem coisas." A metáfora do Rogério ficou: ser ágil não é um trem na mesma direção em alta velocidade. É fusquinha que gira rápido. Fazer 80% do plano e ajustar 20% é ok. 60% descontrolado, não. ## Começar pequeno, polinizar, não virar a página de uma vez O maior aprendizado do Rogério foi tentar implantar o jeito em todos os times de uma vez. Cada um calculava impacto de um jeito, faltava padrão. Pararam, pegaram um time, ensinaram, depois dois, e foram crescendo. > "Eu falei, Rafa, vamos girar pra todo mundo. Ele falou: calma, segura, senão não vai." A Claro tem pelo menos 11 produtos digitais e centenas de squads. Produto complexo, milhões de usuários, B2C e B2B. Toda mudança gera insegurança. O Rafa falou sem rodeio: é muito fácil, numa decisão rápida, falar "foda-se essa história" e furar o método. Por isso, a velocidade da transformação precisa de controle. E o efeito bacana que eles descrevem é o dos **polinizadores**: times que adotam bem passam a ser procurados por outros. Cultura espalhando por todos os lados, não só por decreto. Outro resultado que o Rogério curte: o time sair do "modo padaria". Parar de só receber pedido e começar a perguntar qual problema a área quer resolver. "Coloca no app" deixa de ser a resposta automática. O Rafa somou: empoderamento, discovery de volta (quando o caminho parece fábrica de software, discovery some), priorização mais eficiente, capacidade realista do time, e menos "eu acho" e mais dado. Menos histórias por sprint, mais valor. ## Por onde começar, se a sua empresa ainda não tem um jeito Perguntei a dica pra quem quer criar o próprio jeito e não sabe por onde. 1. Não tentar tudo de uma vez. Pilotar, aprender, escalar. 2. Buy-in da liderança. Sem goleiro executivo segurando bola, o movimento morre. 3. Botar no quadro. O Rafa, o Rogério e o Matheus ficaram até tarde escrevendo o que