Product Arena
Como um PM conquista mais autonomia de decisão dentro da empresa
Onze PMs de OLX, RD Station, Conta Azul, Nextel, Printi e Intuit explicam o que constrói (e o que destrói) a autonomia de decisão de quem faz produto.
Por Arthur Castro
Autonomia é uma das palavras mais repetidas — e menos explicadas — na carreira de produto. Todo mundo quer mais. Poucos conseguem descrever como se chega lá. Para responder a isso, reuni onze pessoas que gerenciavam produtos em empresas como OLX, RD Station, Conta Azul, Nextel, Magnetis, Printi, Intuit e Ingresso.com, e fiz uma única pergunta: **como conquistar mais autonomia de decisões dentro da sua organização?** ## Os pontos que mais se repetiram - Interações constantes e entregas contínuas são o alicerce tático para ganhar confiança com liderança e pares. - O grande diferencial é saber traduzir o seu trabalho para a linguagem dos stakeholders — e mostrar que resultado ele está trazendo. - Você precisa ser "tão bom que não possa ser ignorado". - Uma forma de conquistar autonomia é não desejar autonomia. - Apresente problemas e soluções tão claros que cada tipo de líder consiga compreender — e, a partir daí, confiar. - Autonomia exige atualização constante para ser conquistada e mantida. - Confiança se ganha pouco a pouco. - Curiosidade e interesse genuíno no negócio pesam mais do que parecem. - Embase bem as suas hipóteses. - Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Abaixo, as respostas completas. ## Letícia Gimenez — Product Manager na OLX > "Confie em táticas para aumentar a clareza e criar confiança, que a autonomia vem." Autonomia é resultado de ser um gestor de produto bem-sucedido em dois pontos: clareza e confiança. Clareza é garantir que todos os stakeholders entendam a visão do produto e qual é o plano para atingi-la. Um bom gerente de produto faz essa comunicação exaustivamente. Um gerente de produto excelente constrói a visão junto com os stakeholders, com transparência e colaboração. Quando for necessário decidir um rumo, as premissas de produto já são conhecidas e a decisão é quase intuitiva. As ferramentas aqui podem ser cocriações entre times, 1:1s, apresentações de pesquisas e documentação de produto acessível a todos. Confiança só se constrói com tempo e resiliência. Interações constantes e entregas contínuas são o alicerce tático para ganhar confiança com liderança e pares. Nossa rotina acontece em alta velocidade, mas é sempre bom lembrar que relações interpessoais precisam de tempo para se fortalecer. Esse tempo depende muito do estágio da sua empresa e da cultura organizacional. "Ah, mas na minha empresa eu não consigo me aproximar do time X." Veja bem: vai ser sempre assim. Pessoas e dinâmicas internas de cada time são diferentes e embates são inevitáveis. Na dúvida, se coloque no lugar do outro. ## Arthur Castro — Head of Product na InstaCarro > "Você passa a perder autonomia se prefere ganhar na voz do que com dados, ou se já apresenta soluções baseadas em números que só você sabe." Existem alguns cenários possíveis para alavancar, manter, ganhar ou perder autonomia de decisão: - Você **tem autonomia e liberdade** porque os stakeholders confiam no seu trabalho e você é referência no que faz — e o que está fazendo traz aprendizados ou melhorias. Nesse caso, continuar fazendo o que sabe de melhor é a chave. - Você **tem autonomia** porque os stakeholders não sabem o que você faz (sim, acontece muito), mas confiam em você. Aqui, o diferencial é saber traduzir o seu trabalho para a linguagem deles e mostrar os resultados. - Você **ganha** mais autonomia porque as hipóteses que pretende testar são muito bem embasadas. Conectar qualitativo com quantitativo, mostrar a qual OKR aquilo se relaciona e trazer uma projeção de benefícios fortalece o argumento. - Você **perde** autonomia se prefere ganhar na voz do que com dados, ou se apresenta soluções baseadas em números que só você conhece. - Você **perde** autonomia se não consegue aceitar que houve propostas melhores que a sua. Ter empatia e pensar no resultado, não no ego, muda o cenário. - Você **não tem** autonomia se a sua empresa é cheia de top-down. Aí o que resta é dar um sorriso amarelo ou mudar de empresa. ## Raphael Farinazzo — Product Manager na RD Station > "Você tem que ser 'tão bom que não possa ser ignorado'." **Cultura e valores.** O principal é entender a cultura da empresa e que tipo de valores e critérios são usados para tomar decisões. Se é uma empresa totalmente voltada a números, você terá mais autonomia quanto mais dominar métricas, correlações e argumentos quantitativos. Se você não é tão doente por métricas, dificilmente vai conquistar a autonomia que gostaria — e talvez esteja na empresa errada. Por outro lado, se você é fanático por métricas mas está em um lugar de pensamento visionário e decisões qualitativas, também pode ser hora de considerar uma troca. Quanto mais subjetivos forem os valores e critérios, maior será a sua dificuldade. Então preze sempre pela transparência. **Expectativa e realidade.** Dependendo da posição em que entrou, você pode começar com muito crédito — e nesse caso precisa corresponder às expectativas para manter ou ampliar sua autonomia. Ou pode começar de baixo, acumulando