Product Arena
Estrutura organizacional na era da IA: o que muda nas empresas de produto
Como a IA muda a estrutura das empresas: hierarquias da era industrial, fundação de dados, times menores e as habilidades que definem o bom profissional.
Por Arthur Castro
O modelo organizacional que a gente conhece foi desenhado para a era industrial. E, na leitura de quem está liderando produto e tecnologia hoje, essa estrutura parece estar com prazo de validade.  Eu e o Aíquis recebemos três pessoas com realidades muito diferentes para discutir como a IA está mudando a estrutura das organizações: - [Fernanda Faria](https://www.linkedin.com/in/fernandafaria) — CPTO do Zé Delivery - [Gabriel Hamu](https://www.linkedin.com/in/gabrielhamu/) — Tech & Product Director da Serena Energia - [Fayner Costa](https://www.linkedin.com/in/fayner-costa-5711a2b0/) — Head of GenAI no Itaú Três realidades diferentes, uma conclusão parecida. [](https://youtu.be/8luePci--HY) ## A estrutura atual nasceu para coordenar tropas, não para construir produto A Fernanda abriu com uma provocação que pegou: a forma como as empresas se organizam hoje vem da era industrial. Camadas de hierarquia para resolver o problema de fluxo de comunicação. Coloco uma pessoa para liderar X, que lidera Y, que lidera Z. Quanto mais gente, mais camadas. **Fernanda Faria:** > Eu como CPO, uma pessoa diretora de produto e tecnologia, e o PM e o engineer manager, e todo mundo junto. Forçou uma revisão de estrutura. Essa foi a primeira coisa que a gente mudou. Eu lembrei o texto do Jack Dorsey ligando essas estruturas ao Império Romano, criadas para coordenar tropas distantes. Sobreviveram milênios. A pergunta honesta veio do Aíquis: **Aíquis Rodrigues:** > Será que a gente realmente vai derrubar uma estrutura de centenas de anos em alguns anos? A Fernanda foi mais direta: no Zé já está mais flat. Ela como CPTO, uma pessoa diretora, e o resto do time. Líderes voltando a ser IC. NVIDIA caminhando para isso. CTO e CPO metendo a mão no código de novo. E aqui ela trouxe a parte chata: a gente ainda está na "fase do herói". Tem gente fazendo coisa absurda com IA, e fica nela. A pessoa criou um prompt incrível para consultar o Databricks direto do Cursor e a empresa não absorve. Como sistematizar isso? Esse é o gap entre o experimento individual e a transformação estrutural.  ## Saia da euforia dos 10%, vá para a fundação dos 90% O Hamu trouxe outra provocação muito boa: a gente está no hype da pontinha do iceberg. O grosso do valor está na parte de baixo, na estrutura que sustenta a IA. **Gabriel Hamu:** > Se você ficar amanhã sem IA algum setor na sua empresa, essa área só vai ficar mais lenta ou ela para? Porque se ela para é porque ela já teve uma transformação acontecendo ali dentro. Exemplo prático: a Serena passou o ano anterior inteiro melhorando a base de dados e a camada semântica dos ativos de energia eólica. Fizeram agente interno, testaram com parceiro, não ficou tão legal. Aí, neste ano, quando começaram a usar o MCP do Snowflake, em uma semana estavam gerando resultados incríveis. O **destravamento veio da fundação que ninguém ficou tirando print**. A Fernanda complementou: além de fundação técnica, tem uma fundação organizacional. E surge a próxima pergunta — se essa pessoa sair, quem dá manutenção? Isso vira legado de qual squad? Não é o experimento que falta. É o sistema para absorver o experimento. Resumindo: ferramenta legal sem fundação por baixo gera ganho marginal. O ponteiro só mexe quando a fundação aguenta. ## As habilidades que sobram são humanas, não técnicas  O Fayner trouxe uma provocação sobre o profissional do futuro, e ela não é sobre cargo, **é sobre indivíduo**. Para ele, a grande mudança vai ser nas habilidades humanas, e ele destacou duas. **Fayner Costa:** > Talvez as pessoas mais especialistas vão ser as que mais terão dificuldade de se abster de conhecimento prévio para aprender a aprender de novo. A primeira é **aprender a aprender**, e tem um paradoxo aí dentro. A carreira da gente foi construída em cima de virar especialista em algo: eu sou especialista em produto, eu sou especialista em arquitetura de sistemas distribuídos. Agora, quem está mais agarrado ao conhecimento prévio tem mais dificuldade em se colocar na postura de aprendiz de novo. A segunda é **pensamento sistêmico, crítico e analítico**. Não é só gerir pessoas, é gerir processos, estratégias e agora workflows agênticos. O Fayner deu um exemplo bom: imagine um analista de marketing daqui a pouco. Em vez de mandar para a agência montar o briefing, ele vai operar um pipeline com vários agentes. U