Product Arena
O novo PM da era da IA não é tão novo assim
Análise da palestra O Novo PM, de Claire Vo: o que a IA muda no trabalho do product manager, o que continua igual e por que a cobrança chega mais cedo.
Por Arthur Castro
A tese está em toda parte: a IA teria criado um "novo PM". Um profissional que deixou de ser gatekeeper da engenharia — recurso que já foi escasso — e passou a focar em construir coisas com valor comercial, mudar comportamento e pensar distribuição. Essa é a provocação central da palestra "[O Novo PM](https://www.youtube.com/watch?v=4CAFK-rc26A)", de [Claire Vo](https://www.linkedin.com/in/clairevo/), host do podcast [How I AI](https://www.youtube.com/@howiaipodcast), fundadora do ChatPRD e ex-CPO da LaunchDarkly, apresentada na conferência do Cursor em junho de 2026. > *o PM deixou de ser gatekeeper da engenharia (recurso escasso) e passou a focar em construir coisas com valor comercial, mudar comportamento e pensar distribuição.* Ouvindo o papo dela, eu e o Aíquis ficamos com uma dúvida grande: **tem algo de novo mesmo?** [](https://youtu.be/PrJ8OVDxAgk) ## Tem algo de novo no novo PM? A Claire abre a palestra passando Scrum, SAFe, waterfall e metodologias clássicas como "coisas do tempo das cavernas". Os primeiros 15 minutos geram pânico. O Aíquis assistiu com aquele sentimento de: será que eu estou ficando pra trás? Minha leitura é outra. Tem ferramentas novas, talvez um caminho novo pra chegar na conclusão. Mas o que bons PMs já faziam, **eles continuam fazendo**. A IA potencializou e tornou mais visível a **diferença entre bons PMs e medianos**. Antes era possível se "esconder" atrás do processo. Quando priorizar o que vai pra produção vira 10% do trabalho, fica evidente quem tem product sense de verdade. > "Antes era possível se esconder, com muitas aspas, atrás do processo. E agora, com a velocidade das ferramentas, vai ficar muito mais visível." **O novo PM não é nada diferente do velho PM.** As skills que ela valoriza são as mesmas que a gente já valorizava. Distribution is king, olhar pro business, pensar em marketing: senso comum há anos. Até citamos o episódio do Brian Chesky, do Airbnb — de três anos antes desta conversa —, falando que PMs iam abraçar funções de PMM. Não era nem num contexto de IA. Talvez o que mude seja o nível de senioridade em que essas coisas passam a ser cobradas. Coisas que você esperava de PM sênior vão descer na cadeia, porque a task que era o job inteiro do PM júnior virou só uma task. ## Ferramentas iguais, processo diferente Outro questionamento: **os PMs vão deixar de ser gatekeepers de engenharia?** Não sei, pelo menos por agora. A maioria das empresas ainda está experimentando novos jeitos de fazer produto imitando os modelos antigos. Pegando as etapas e otimizando com IA, sem repensar a estrutura como um todo. > "A gente está nessa fase mesmo, onde é a velha história dos apps de celular. Sempre começa imitando a coisa que existe até descobrir qual é o formato nativo daquela nova plataforma." Voltei pro gap de timing que já discutimos várias vezes. Temos acesso às mesmas ferramentas do Vale, mas ainda não balizamos como usá-las no processo. E como fazer o reshaping da estrutura. Citei um episódio com o Nikhil sobre como a Meta está mudando o trabalho do PM por dentro. Tem movimento nas gigantes também, com recorte de lugar. O próximo passo, na minha visão, é sair do Personal OS e chegar no Team OS e, depois, no Company OS. A gente vê muito PM montando sistema pessoal com IA, mas pouco time ou empresa inteira operando de forma estruturada. ## Build something people will pay for Um ponto da Claire que fez sentido pros dois: a mudança de *"build something people want"* para *"build something people will pay for"*. As melhores pessoas de produto com quem trabalhei sempre tinham essa visão. Poucos PMs pensam no custo do time, no quanto uma iniciativa pode estar custando — mesmo que seja uma conta de padaria. > "Naturalmente, os que fazem isso vão se destacar, assim como vão se destacar a partir do momento que sabem usar as ferramentas no dia a dia." Pensamento crítico, entendimento financeiro, olhar pras próximas tendências: isso vai distanciar, ainda mais, os bons dos medianos. A IA acelera, mas não substitui essa base. E talvez esses tópicos voltem com força agora porque falar só de IA já encheu o saco. Precisa aparecer algo novo que possa ter IA no meio, mas não deixar a IA no centro. ## Tarefas viram 10%, trabalho sobra Isso conecta direto com a frase do Mustafa Suleyman, da Microsoft: **IA automatiza tarefas, não trabalhos.** Quando você achata as tasks delegando pra IA, sobram coisas novas. E as expectativas sobem mais cedo na carreira. O Aíquis trouxe o framework [PSHE, do Shishir Mehrotra](https://creatoreconomy.so/p/the-best-framework-for-career-growth-shishir) (ex-CEO do Coda): Problem, Solution, How e Execution.  Quanto menos sênior, mais você recebe execução pura. Quanto mais sênior, mais você trabalha no escopo do problema. Com IA, a escadinha sobe mais